Tudo o que está para além do explicável, para além do palpável,
literalmente além seja do que for, suscita curiosidade. Quem não lê, de vez em
quando que seja, o horóscopo? Quem nunca viu as características do signo? Quem
nunca fez o jogo da agulha? Que atire a primeira crítica.
A verdade é que fui a uma cartomante - se disser Bruxa, será
que ela se ofende?!
Marquei a consulta como se do dentista se tratasse. Fui
pontual, não fosse a Senhora rogar-me alguma praga e se havia lugar em que esta
palavra fazia sentido, era ali. Tal como em qualquer consultório, a senhora – a
bruxa, no sentido adivinho da coisa – chegou atrasada. Enquanto isso, apreciava
a sala de espera. Sim, até tinha sala de espera. As paredes em tons rosa e
branco, num cenário muito bucólico e romântico, pela escolha da decoração,
aposto que são mulheres na maioria que a consultam.
Uma senhora, na casa dos sessenta e muitos dirige-se a mim,
pensei que me fosse segredar ou perguntar alguma coisa, não a vi quando
cheguei, mas era a recepcionista discretamente a dizer que era a minha - nossa -
vez. Não fui sozinha, curiosa que é curiosa desencaminha sempre alguém. Tudo
tão protocolar - que nem dava para brincar com a situação - deixa muitos
consultórios “de verdade” a anos-luz! Eu devo de ter ido à Bruxa chique, só
pode!
Confesso que esperava
uma velha de preto com uma verruga e uma vassoura no canto da sala. E tudo escuro. Mas com a modernização, tudo mudou. O consultório era minimalista, arejado e a Sra. Bruxa, uma pessoa aparentemente
normal. Vestida de forma casual e com um discurso que roçava o de psicóloga/amiga.
E o grande momento
chegou. Duas raparigas - duas mulheres! Agora parecia a minha avó a falar das
amigas - a entrarem num sítio destes, ou desconfiam do marido ou não têm
marido! Quem quer ser a primeira e o que querem saber? Pergunta a Senhora - vou
tentar evitar chama-la de Bruxa. Cheguei-me logo à frente. E respondi
corajosamente: Tudo! Parti o baralho em dois e começou a consulta onde ia saber
o que me esperava nos próximos dois anos – não me perguntem o porquê do limite
de tempo, foi o que a senhora disse. E nestas coisas, cada uma sabe da sua
profissão.
Para disfarçar, comecei pelo trabalho, visto que está tudo
em crise, as previsões foram tipo o tempo, negras! Para a saúde, recomendou agasalhar-me bem que andam por ai umas gripes. Quem diria?! Se não fossem as
cartas, estava tramada!
Quanto ao amor, tivemos uma hora, à volta do amor.
Começou por fazer referências ao passado e ao presente. Não
batia a bota com a perdigota, mas eu queria mesmo era saber o futuro, estava
ali num frenesim para saber o que me esperava. Há terceira haveria de acertar, e
é então que me diz assim sem dó nem piedade que me esperavam dois anos de uma
mão cheia de nada. Que desilusão! Mas tenho a dizer que me encorajou com a
descrição da pessoa, que não sabe, mas vai tropeçar em mim. Saí de lá logo com
uma perspectiva de negócio para a senhora, desenvolvia a arte de desenhar, fazia
um retrato robot e ganhava uma fortuna. E eu, ganhava tempo. Espalhava retratos
do meu futuro - qualquer coisa - fazia um blog ou atirava-me da ponte com uma
foto ao peito, quiçá conseguia captar a atenção de uma estação de televisão e
passar no jornal das oito! Alguém haveria de reconhece-lo!
Até que, completamente embrenhada no que ela me dizia,
perguntei: e filhos, diz ai alguma coisa? E sabem o que o raio da bruxa - agora
teve de ser, merece! -me respondeu? Se não tem nenhum problema, não tem filhos
porque não quer! Fiquei a pensar nisto, não deixa de ser verdade. A bruxa
tem razão!
A parte engraçada é que passamos o resto da tarde a falar do
assunto, bem ou mal, ainda nos questionamos da veracidade e da falta dela em
tudo o que a cartomante nos disse. Mas eu garanto-vos que desde que tenham a
vocação para contar histórias é uma profissão em ascensão. E com a crise, diria
que deve de ser das poucas que têm lucro neste momento. Por outro lado, também
não fazem mal a ninguém e acredito mesmo, que muitas das vezes, até ajudam,
porque naquela hora, independentemente do que digam, as pessoas que lá vão
sentem que alguém as ouve.
Conclusão: Se precisarem de algum conselho procurem as
amigas de verdade, só têm vantagens e são de borla!