domingo, 4 de maio de 2014

Um dia especial...

Não me incomoda não ter uma relação, sei que mais cedo ou mais tarde vai acontecer. Com o avançar da idade tudo acontece - naturalmente - com maior rapidez. Do coração, vivo muito bem com essa condição. Mas o que me faz pensar é que vou ser uma mãe mais velha do que gostaria.

A minha mãe foi precoce neste sentido. O que faz com que tenhamos somente dezassete anos de diferença. Fazendo contas, de forma divertida – se fosse hereditário - eu já poderia ser avó! Mas, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. E cá estou eu a contrariar a cronologia da árvore genealógica.

Fico felicíssima quando as minhas amigas/os anunciam a boa nova e amo os filhos deles. Acompanho as evoluções e preocupações. O que acaba por me tranquilizar para umas coisas e preocupar para outras. Como se tivesse workshops completos e variados sobre o tema. O que me aguça mais o desejo.

Não sonho com príncipes encantados montados em cavalos brancos nem com pessoas perfeitas. Tento esquecer os estereótipos e ajustar a “chek list”. Mas muito provavelmente, a minha exigência não facilita. Paciência. Estou tão calma que me dá a serenidade necessária para escolher com cabeça e com o coração. Tenho saudades do estômago a borboletar. Mas quero o “tal”. Não mais “um”. Quero a pessoa certa para ser o pai dos meus filhos e o companheiro para a vida.

Se pudesse ter escolhido, teria sido mãe por volta dos trinta. Uma boa altura, penso. Antes não. Precisava deste tempo que tive para mim. Também acho que não teria a maturidade necessária para a educação que hoje sei que gostava que o meu filho tivesse. Por outro lado, não fui mãe porque não quis – já dizia a “bruxa”. Mas só sei e acredito que fiz as escolhas certas, porque não aconteceu. E ainda bem. Agora sei que vou desempenhar tão melhor o meu papel.

O meu relógio biológico há muito que toca. Sinto-me incompleta.

Não perco noites a pensar, mas suspiro… Digo-o com um sorriso: Príncipe aparece, quero tanto ser mãe!

terça-feira, 15 de abril de 2014

Amigos - pouco - coloridos

Num jantar em que por certo, muitos bons rapazes ficaram com as orelhas em chamas, a conversa fluía de uma forma maravilhosa, o relógio e os telemóveis não existiam e tudo parecia perfeito. Até que o tema foi aprofundado e no meio dos vários testemunhos percebi que há quem não se sinta nada confortável com o actual estado civil. E que lidam da pior maneira possível com o assunto. A meu ver, devemos de gostar muito de nós. Relembro a velha máxima de que: “se não gostarmos de nós, quem gostará?”

Há um grupo de pessoas que lida bem com os amigos coloridos, que os têm com plena noção de que é tudo muito físico, embora haja mesmo carinho entre as partes, mas que por algum motivo – dos mais variados – não avançam para outro nível. As que perdem - ou ganham! - o controlo e que acabam na Igreja. E as que não lidam nada bem com estas modernices. E é neste último grupo que me vou focar.

A vulnerabilidade faz com tenham comportamentos contra natura. São mulheres inteligentes, realizadas profissionalmente, bonitas, que tinham tudo para estar de bem com a vida. Não fosse esta não lhes facilitar a única coisa que elas desejavam: uma relação. Elas só se querem sentir amadas e acabam por se sentir usadas. Ouvi relatos de situações impensáveis neste mundo tão avançado tecnologicamente para umas coisas e tão parado ainda para outras. Uma nuvem negra mudou a paleta do arco-íris destas mulheres tão fortes aos olhos dos outros e no fundo tão frágeis.

Frágeis, porque se sentem carentes. Não por inocência. 

Quase todas acabavam com “mas sentia-me sozinha”. Compreendo. Feliz ou infelizmente. Mas do que adianta ter companhia para um par de horas se no fundo não é o que queriam? O desespero – ou a pressa – nunca foi amiga da perfeição. E uma relação forçada certamente não será a parceira ideal. O "não" é um direito que nos assiste. 

Refiro-me particularmente as mulheres, muito provavelmente também acontece com o sexo oposto. Mas tenho a ideia de que a nível sexual os homens estão mais resolvidos. Se usados, lidam melhor com o assunto.

O mundo virtual tem inúmeras vantagens. Eu escrevo de onde me sentir confortável, de pijama, descabelada. Não importa. É onde me apetece. Conforta-me e leva-me para longe. E essa a minha filosofia. Faço o que me apetece. Não o que querem. É uma das vantagens! Não sou nenhuma santa, nem quero vender essa imagem. Sou uma mulher, ciente das decisões que tomo. Tomo-as com a liberdade que me é permitida. E durmo de consciência tranquila e de alma lavada.

Não está na mão de ninguém, só na vossa. 

A carência torna-as alvos fáceis. Quando o que procuram é tão-somente um colo. Um abraço. Um beijo!  

segunda-feira, 24 de março de 2014

Uma paixão!


Não cozinho por obrigação, mas por gosto. Devoro livros de culinária e não perco um programa de televisão relacionado com o tema. Aponto as receitas, reinvento e na maior parte das vezes até corre bem. É a minha terapia quando o dia corre mal e a minha paixão quando o dia corre bem. Gosto em especial de doces e bolos. Adoro chás e ervas aromáticas. Mas as massas são a minha especialidade.

Gosto de todo o tipo de cozinha, se bem que a Japonesa me conquistou e tenho alguns problemas com a Italiana, visto que não gosto de queijo – não contem a ninguém mas ultimamente digo que sou alérgica, porque quando referia esta pequena esquisitice – grande aos olhos de muitos - via o desdém nos olhos de quem recebia a informação ou o silêncio ensurdecedor de quem ouvia o pedido por telefone. Mas respeito tanto quem gosta, que quando cozinho acrescento o ingrediente proibido. Na verdade até fica com melhor aspecto, mas o cheiro, não há volta a dar. Tenho o dobro do trabalho mas nada a que já não esteja habituada. E acho um crime privar alguém só porque eu odeio o dito.

Se há vantagens, é na cozinha.

O frigorífico só tem coisas boas, ninguém se queixa do tempero, da cozedura e tão pouco dos horários. Digo isto, mas eu adoro cozinhar para mais pessoas, no entanto, sou sempre a minha grande crítica e vou apurando as novidades até ter razões para fazer brilharetes.

Tenho como regra ter sempre sopas diferentes congeladas, para o caso da preguiça apertar. Sempre que faço uma nova congelo duas doses, desta maneira a base para uma refeição está sempre pronta e ainda tenho opção de escolha. O complemento improviso de acordo com o tempo e com a fome. Por isso, um truque é ter sempre o básico: salada, legumes, massas, farinha, ovos, atum, cogumelos, tomate, ervas aromáticas secas e uns vazos com ervas aromáticas frescas, por exemplo. Têm prazos longos e alternados duram algum tempo. No caso das ervas frescas, para além de serem muito praticas e fazerem a diferença no toque final, aromatiza a cozinha. Carne e peixe separados por doses, para que facilmente se cozinhe. Saber fazer massa quebrada, folhada e de pizza também dá um jeitão. Evito umas idas de última hora e apressadas ao hipermercado. Mesmo que tenham de levedar, aproveito para preparar os restantes ingredientes. Se não, ter congeladas, é sempre uma alternativa.

Outros artifícios – e uso bastante – gelo aromatizado. Ideal para bebidas e com o Sol a espreitar fica bem em qualquer sumo de fruta ou bebidas digestivas. E ainda, azeite aromatizado congelado em couverts, práticos para refogados. E aromatizado - mas não congelado - para saladas e outros temperos.

Aproveito a hora das refeições para fazer algumas actualizações do dia. Sentar-me à mesa é dos meus grandes prazeres. Se bem que abro umas excepções - de vez em quando - e como com a bandeja no sofá. Acontece quando estou com as minhas séries em atraso. Não sei é bom ou mau, mas sabe tão bem!

Compreendo que nem todos gostem de cozinhar e que por isso optam pela comida congelada e umas sanduiches básicas. Ou então, pelo pronto a comer mais próximo. Não querendo estragar o negócio a ninguém, acho que é tudo uma questão de hábito. Para quem está neste grupo, aconselho que comecem a desfolhar uns livros de culinária, principiem por receitas rápidas e saudáveis. Aos poucos vão descobrir que comem melhor, se mantêm entretidos enquanto, pelo menos, tentam e se resultar vão ficar tão entusiasmados que vão querer experimentar outras receitas. E quando derem por vocês estão uns chefes - da vossa casa!

A minha refeição preferida é o pequeno-almoço. Gostava tanto de acordar e ter… pão fresco sem sair de casa! Não, não era fazer, era assim ele cair do céu - estou mesmo a falar do pão. Não sou assim tão sonhadora, pois não? – Continuo a falar do pão - juro!

Se preferia partilhar? Preferia, mas não era a mesma coisa.

terça-feira, 18 de março de 2014

Final de relações longas...

 “Solteira aos trinta(s)? Uma relação longa que acabou, estou certo?” perguntaram-me recentemente.

Ao contrário do que provavelmente ficou a pensar, a relação longa não foi a última, mas a primeira. Aquela em que se aposta tudo, que se faz tudo, se atura tudo até ao dia em que não se tolera mais nada. E apercebi-me que eu, tal como a maior parte de vocês, provavelmente sofremos desse síndroma.

Um dos problemas das relações longas, é que a relação deixa de ser a dois, mas enraizasse na família, e quando acabamos, custa mais acabar com a família do que com o parceiro. A mim aconteceu-me isso, a relação estava presa por fios em que a família se esforçava imenso para manter, e o sentimento por eles era tão profundo que fui arrastando. Costumo dizer que: encontrar um namorado melhor, não vai ser difícil, mas uma família, só igual, porque melhor, duvido!

Costumo comparar o final de uma relação a uma morte – daí chama-los de falecidos ou defuntos. Afinal, para recuperar – e aceitar – passamos por todas as fases. Tal como quando perdemos alguém - no verdadeiro sentido da palavra.

Se o tempo voltasse atrás, tenho as minhas dúvidas se mudava alguma coisa, não pelos momentos bons ou maus, mas pela aprendizagem que foi, um curso intensíssimo – um Doutoramento - do que não se deve fazer, do que não se deve consentir. Erros naturais e de uma enorme inocência.

O meu conto de fadas fora banhado por um tsunami. E foi neste momento que despertei para a realidade.

No entanto, a relação longa, trama-nos as contas. Porque os anos não voltam para trás. E nesse sentido o rapaz  - que me fez a pergunta - acertou em cheio. Olhando para o passado consigo dizer o momento exato em que a relação deveria de ter terminado, mas por teimosia – ou pela ingenuidade do primeiro amor - arrastei enquanto pude. Até que houve um dia, o ”dia”, em que senti o interruptor desligar. Acreditem, acontece mesmo. Fui mesmo vencida pelo cansaço.

Para quem está nesta situação, que pelos relatos que recebo em privado, são mesmo muitos.

Garanto-vos que é possível sarar um coração partido. Até vou mais longe e garanto que só quando ultrapassei percebi o verdadeiro significado do ditado: “não há amor como o primeiro”. Porque há coisas que só “aturamos” uma vez, a primeira vez, daí em diante, somos mais autónomos, seguros, realistas e menos ingénuos.

O primeiro, foi o amor da minha vida - aquele que testou os meus limites - mas não o Homem da minha vida. Por esse, espero calmamente. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Palavra proibida: Ex!

Ao contrário do que acontece no final da adolescência/início da maioridade, aos vinte e poucos ou mesmo vinte e muitos, a probabilidade de encontrar um solteiro depois dos trinta é tão baixa, que nos devemos de mentalizar que o mais certo é um divorciado ou viúvo. O que é mesmo muito aborrecido, porque esqueçam o vestido branco e a entrada triunfal na Igreja, eles já la estiveram e só se vai uma vez.

Também há a probabilidade – altíssima - de vir com brinde. O que me assusta. Pois a palavra associada é tão forte quanto negativa e não me lembro de nenhuma enteada/o dizer bem da madrasta. Haverão, como em tudo excepções - desde que ela/ele não queira um braço de ferro, prometo esforçar-me para que sejamos grandes amigos - pensamento positivo e muitas figas! Ainda acresce ao pacote das probabilidades, a fava. Não há desculpa possível para o fim-de-semana obrigatório em que nos cruzamos com a mãe do filho e a ex-tudo. Principalmente se ela não tiver na mesma fase de resolução. Se bem que, desde que não sejamos a causa da separação pode até ser pacífica a relação entre as duas. Mais que não seja porque teremos de nos encontrar todos no aniversário da criança!

Independentemente de serem solteiros ou divorciados, certo é, que vem com um role de ex-namoradas, na melhor das hipóteses, tendo em conta que poderão vir com o rótulo de ex-mulher - até já me está a dar calores! E outra problemática se levanta, estas modernices de se darem com as ex , faz-me alguma - muita – confusão. Por algum motivo são ex, pensem, nem que seja, no tempo perdido. Pior ainda são as que não chegaram a ser oficiais, mas também não chegaram a ser perda de tempo, porque foram amigas coloridas em que tudo correu bem. E fica aquele clima de incerteza boa, em que por circunstâncias diversas não avançaram para uma relação porque podiam estragar tudo o que tinham de bom. Estas sim, são uma ameaça e ao mesmo tempo a insegurança saudável. Faz-nos pensar que se não cuidarmos vem o lobo mau e lá se vai a oficialzinha!

Mas com a idade aprendi a lidar melhor com isso, já acho permitido um “olá”, obviamente seguido de um “Adeus” sem espaço para o “está tudo bem?” que isso dava azos a conversas e a sorrisinhos dispensáveis. Se ela for gira e demasiado proporcional – boa! – Então só tem ordem de soltura para acenar, sorrir e desviar automaticamente o olhar.

Não são tão poucos os casos, de ex-casais que conheço em que para além de amigos, são os melhores amigos, saem para o café e numa outra fase, em que iniciam novas relações, acabam mesmo por se relacionar todos. Frequente principalmente em grupos de amigos comuns - que é o único caso em que até compreendo. Ainda assim, não acredito que se esqueçam que tiveram uma relação intima. E era nestas alturas que pagava para ler pensamentos num jantar em se cruzam todos.

Ou será que significa que as ex-relações estão bem resolvidas, as pessoas são civilizadas, crescidas e isso é mesmo permitido?

Bem sei que no final das relações, há a fase inicial em que nem os queremos ver à frente, a seguinte em que, se for possível mantenham a distância, e outra em que podem estar num mesmo recinto que são invisíveis. Mas amigos? Não creio. Considero que todas as minhas relações passadas estão mesmo muito bem resolvidas e ainda assim não mantenho contacto com nenhum. Não sinto qualquer necessidade de aproximação e quando me cruzo ocasionalmente com algum só me vem à cabeça as coisas negativas o que faz com que me sinta um “DUM DUM” e aplique automaticamente o slogan.

Quero com isto dizer que é uma vantagem enorme não falar com os falecidos - substituição carinhosa, ou não, de Ex - o “futuro” está sempre tranquilo, e evitamos discussões mesquinhas e paranóicas - reconheço. 

domingo, 9 de março de 2014

Trimilenária

O pós dia mulher foi muito especial para mim, faz hoje dois meses que ganhei coragem para iniciar este projeto. Não tinha grandes expectativas quando criei o blog, pensei que ficasse pelos amigos e amigos de amigos. Mas o incrível poder do mundo virtual surpreendeu-me.

Entusiasmei-me a cada novo “gosto”, com cada mensagem que recebi - pública e/ou privada - com os incentivos de todos os que se identificam com o conteúdo do que escrevo.

Assusta-me perceber que não tendo pensado em números, também nunca pensei ser trimilenária, muito menos num período de tempo tão curto.Obrigada por fazerem parte deste meu cantinho, tão especial para mim. Não imaginam o bem que me fazem.

Cada “gosto” corresponde a uma pessoa, a uma vida e a uma história. A cada um de vocês o meu obrigada, do fundo do coração!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Dificilmente teria uma relação com alguém que…?

Ao ler a frase “Yes i´m single! And youll have to be fuckin amazing to change that” fiquei a pensar no quanto teria de ser mesmo fantástico para me fazer pensar em mudar de estado. E empregando o comentário de uma leitora do blog “cabe um mundo na palavra amazing”. E o que é para mim, não será necessariamente para outra pessoa.

Podia falar da lista interminável de qualidades desejáveis, porque com a idade tornamo-nos mais existentes e selectivas. Mas como estou bem-disposta, vou falar da minha lista de tolerância zero. Dos defeitos com que não consigo lidar o resto da vida.

Tenho pedir desculpas antecipadas porque o conteúdo a seguir pode - mesmo - ferir susceptibilidades.

Se há coisas que me incomodam é que conduzam mal. Não têm a mania de rotular as mulheres de más condutoras? Então têm de obrigatoriamente compreender a linguagem do GPS, saber como e quando mudar de mudança - sem as “arranhar” - estacionar pelo menos à segunda – vá à terceira se for um lugar pequeno, e que não tenham estacionado à primeira ou a segunda por nabice, mas porque a manobra não era mesmo fácil - e não ter problema em conduzir numa cidade que visitam pela primeira vez. Não conhecer a cidade, não muda o lugar dos pedais nem a ordem das mudanças. O meu sistema nervoso ressente-se mesmo perante este cenário. Ah! E se puderem saber qualquer coisa do carro para além do depósito do gasóleo/gasolina também não lhes fica nada mal.

Outra condicionante - e subscrevia qualquer petição em que deveria de permitir direito direto ao divórcio e com uma indemnização vitalícia por quaisquer danos causados- é: ressonar! Eu gosto muito de dormir, feliz ou infelizmente ainda não tenho motivos de força maior para não ter um sono profundo e sem interrupções, logo, é suposto serem horas em que se “desliga”. Independentemente de ter sido um bom ou mau dia, é suposto regenerar tudo e mais alguma coisa. Não conseguir descansar pelos sons emitidos ali ao lado, e como se não fosse mau o suficiente a pessoa que nos está a perturbar ainda dorme profundamente, é tudo o que não se quer na cara-metade.

Porque como ninguém é igual, isto para outras são pormenores. Para mim um gigantesco drama!

Os dramas das minhas amigas são por exemplo: usarem manga à cava, deixarem a porta aberta quando vão à casa de banho ou arrastarem os pés quando andam. Pormenores a meu ver contornáveis com uma conversa aberta e sincera.

No entanto, se preencher a lista de requisitos e ressonar ainda podemos negociar - com a promessa de um tratamento qualquer - agora conduzir mal, não há negociação possível!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Abordagens #2

Adoro os fins de dia na praia, deitar-me de barriga para baixo e moldar o corpo na areia. Fechar os olhos. Ouvir o barulho da rebentação da agua e as vozes ao longe num zumbido característico de Verão. Gosto do Sol quente a bater nas costas depois de um mergulho.

E foi num destes maravilhosos dias em que não tinha horas para regressar, que os ares algarvios me surpreenderam.

Estava esponjada no deslumbrante areal, numa das praias a Sul em que em pleno Agosto, não há problema em estender a toalha. Onde não se avista o início nem o fim da praia, num cenário esplêndido e revigorante. Levantei a cabeça - não sei bem porquê - e lá vinha ele. Encandeada não vislumbrei bem, só vi a volumetria e percebi que era alto. Mas a figura prendeu-me a atenção. Discreta, como tento sempre ser, mas nada indiferente ao que via, mudei de posição - na verdade era mais fácil de espreitar pelo canto do olho – e ele estaciona três metros ao lado. O Deus grego era, agora, oficialmente meu vizinho. 

Estendeu a toalha e pousou a mochila. Ao contrário de mim, optou pela atividade ar livre. A inquietação e a dedicação ao yoga, causaram um misto de sensações: estranheza, porque raros são os homens que praticam - que eu conheça - e admiração por fazê-lo sem qualquer receio de censura, por gosto diria. Pelo físico, é adepto de desporto. Que chatice! 

Algum tempo depois, senti que os três metros estavam a encurtar, o Deus grego, vinha mesmo na minha direção. Chegou perto de mim, baixou-se. Num português mal falado, com uns olhos azuis penetrantes, com a tonalidade reforçada pelo azul do mar e a incidência do Sol, a pele dourada natural no fim do Verão e com uns dentes tão brancos que mais pareciam fazer publicidade a um dentífrico qualquer, perguntou-me: Não queres vir correr? Epá, não podia perguntar se queria ir beber uma água ou comer um gelado? Agora, correr?! Bolas! Sou a rainha da preguiça. E estava num fim-de-semana de descanso. E acho que tropeçava mal me levantasse. Respondi meio atrapalhada: Não, correr não. Obrigada! E ele respondeu - muito rapidamente: vais ficar ai deitada o resto da tarde? E eu pensei: sim, claro, era esse o plano. Leu-me claramente o pensamento, sorriu timidamente e antes que eu respondesse, o Deus grego disse: eu vou, já volto. Voltou, para a toalha! Durante o tempo da caminhada, pensava no que fazer para retribuir o convite... E tanto pensei, que nada fiz.

Poucos mais já eram os resistentes do final do dia. Preparei-me para ir embora, na esperança de uma nova abordagem mas não fomos além da troca de olhares e sorrisos envergonhados. Acenei em gesto de despedida e ele retribuiu com um enorme sorriso. Enquanto andava, olhei para trás, três ou quatro vezes e ele lá estava, fiel, com o olhar direcionado. Arrependi-me de nada ter feito. Ainda pensei voltar no dia seguinte ao mesmo sítio, à mesma hora, mas imaginei que a probabilidade de um déjà-vu, era ínfima. 

Foi um encontro fugaz, mas memorável.

E agora penso: que um simples convite para uma bebida no bar da praia ou um bilhetinho com o número, tinha preenchido a página de um dia, daquele simples dia. Que provavelmente só foi simples, porque as dúvidas inquietantes e uma vez mais o receio pelo desconhecido, falaram mais alto. Ou o destino, como prefiro acreditar.