Esta semana passei mais de metade das horas dos dias no hospital - naquele que foi noticia por razões menos positivas.
Durante essas horas, intermináveis para quem espera, bebi
até à última gota as historias. A historia de cada um dos que na hora de medo,
contavam o que de mais marcante viveram. E todas elas- todas! - acabavam com uma
historia de amor. Do mais calmo ao mais
irreverente. Dos que ainda tinham as suas mais que tudo ao lado aos que as
recordavam. Todos falavam da importância de um pilar e de uma família.
Os olhos
brilhavam quando o tema era o lado sem dor do coração que agora fraquejava.
Em comum todos tinham: um coração muito debilitado e as famílias com o coração na mãos.
E de todas as que conheci. Houve uma especial.
O “Bom Vivan” como ele mesmo se apelidou. Tem 68 anos, nascido
e criado num dos bairros mais problemáticos de Lisboa. Teve a escola intensiva
da vida. Dizia que a tinha vivido da melhor forma que pode. Fez tudo o que lhe
apeteceu. Mas que feliz, feliz só tinha sido nos 8 anos que fora casado com a
mulher que enfrentou tudo e todos por ele. Sem olhar às origens nem aos “rotolos”. Uma mulher que sendo de uma classe social bem diferente, se limitou a ouvir os batimentos acelerados do seu amor - adoro! Uma doença prolongada roubou-a prematuramente. Não teve filhos. Mas que se
agarrava a esse amor para recuperar do AVC - depois de ter superado a grande
prova da operação - que lhe roubou a fala durante semanas. O orgulho e saudade
estampados no rosto, na voz e nas lágrimas que discretamente limpava. Nunca mais
o vi, espero que esteja bem. A viver a vida.
E o meu avô. Não tão fácil de apresentar, porque é o meu. Os seus 80 anos de
historias batiam a léguas os Lusíadas em aventuras, um dia faço uma compilação
tipo a Anita. Já estou a imaginar os títulos “o meu Avô na …”.
Casado há 58 anos, com filhos, netos e bisnetos. Com uma
vida repleta de altos e baixos, mas com uma força de viver invejável. O
problema dele não era que alguma coisa corresse mal na cirurgia. O grande drama, era se a minha avó se voltava a apaixonar. Ou seja, uma cena de
ciúmes antes desta grande prova, a do coração - no verdadeiro sentido da palavra.
Espero que cirurgia
cárdio-torácica que o encorajamos a fazer para que recuperasse a qualidade de
vida perdida nos últimos tempos, seja mais uma a contar no próximo jantar de família,
combinado para quando regressar a casa. O sorriso com que acordou, fez-nos respirar de alivio. Os dois avc´s que se seguiram quando já se fazia a contagem decrescente para ter alta, apertaram-nos o coração. A esperança de que tudo vai correr bem - e que o meu Avô não se vai ter de preocupar com a
concorrência - encoraja-nos a cada visita. O meu contador de histórias está agora com uma nova dicotomia. Tão difícil de entender quanto de aceitar. Tudo tinha corrido tão bem. A sua energia fora também roubada pelos escassos segundos como se de um sismo se tratasse - ainda que de escala reduzida - roubou-lhe a fala e o movimentos do membro superior direito. Podia ter sido pior, podia. Mas também podia não ter acontecido e tudo ter sido um sucesso. É a vida.
Não há idade para amar. E um amor, é sempre um amor.
Não há idade para amar. E um amor, é sempre um amor.
Amo-o o tanto, que até prometi esquecer o que ele me disse no Natal.
“Vou pedir ao tempo,
que me dê mais tempo,” tenho de olhar para si.

